Como redescobrir o desejo depois de anos de relacionamento?

Quase todos os dias, atendo casais em busca de "vivacidade" em seus relacionamentos. Quase sempre, os relatos começam com elogios às qualidades de seus parceiros ou parceiras: qualidades de caráter, qualidades como pai ou mãe, como amigo, companheiro... e quase sempre o relato de tantos predicados termina com um "se nosso relacionamento é perfeito, por que não transamos mais?".


Como boa psicoterapeuta (rsrs), quase sempre também devolvo a pergunta com outra pergunta: "O que você sabe sobre seu/sua parceiro(a)?". E a resposta: "Sei tudo! Já não te disse?"


Mas, no fundo, o que não reconhecemos é que o quê nos limitamos a conhecer da pessoa que está ao nosso lado, é apenas o que desejamos conhecer dela. E essa história começa bem antes...


No começo, somos só paixão e excitação: "Será que ele vai me ligar?", "Será que ela vai aceitar sair comigo hoje?".


E toda essa incerteza causa o medo da rejeição. Quanto mais nos apaixonamos, mais percebemos que tememos perder.


Num tremendo esforço para nos livrar da angústia, passamos a inventar estratégias para tornar essa paixão incerta, o mais segura possível. Firmamos compromissos perante as redes sociais, a família, os amigos e até perante a Igreja. Feito isso, negociamos alegremente um pouco de liberdade em troca de estabilidade e... Pronto! Podemos nos jogar de cabeça nesse sentimento que, agora, temos certeza que é seguro! Muitos até se arriscam dizer a célebre frase "a nossa paixão virou amor!".


Que maravilha! Dominamos a emoção da insegurança! Estamos tranquilos! Até que percebemos que, conforto é bom, mas começa a faltar espontaneidade e que, ao controlarmos os riscos, matamos a paixão e com ela, o desejo sexual.


Nosso dilema é que, o amor até alivia nossa solidão, mas aumenta nossa dependência do outro. E ser dependente do outro nos torna vulneráveis ao outro. Não tem jeito, quando nos apaixonamos, nossa tendência natural é tentar controlar, o outro e o relacionamento, o máximo que pudermos, para controlar nossa ansiedade. Diminuímos a distância, ampliamos a certeza, reduzimos ameaças e freamos o desconhecido.


Quanto mais longo o relacionamento, mais o casal tende a valorizar a rotina e o previsível: o previsível financeiro, o previsível social, o previsível... e, lógico, compreendo a importância do previsível para nossa vida. Mas o erotismo gosta do imprevisível. Não dá para desejar o que nos é habitual e repetitivo, a não ser quando nos dispomos a sair da rotina.


Nós mesmos matamos a paixão em nome, não do amor como muitos dizem, mas em nome da nossa incapacidade de lidar com a nossa própria vulnerabilidade em relação ao outro.

Você não acha que é arrogante demais da nossa parte supor que podemos tornar nossos relacionamentos permanentes? Pois, se pensarmos com clareza, até na promessa que fazemos na Igreja, reconhecemos a natureza transitória de nossa vida com o "até que a morte nos separe".


Mas, em nossa tolice, na verdade, só estamos trocamos a "fantasia da paixão" pela "fantasia da estabilidade". É uma fantasia por outra, já que, por mais que nos esforcemos, a estabilidade, nunca será real: temos que conviver constantemente com o risco de perder nosso(a) amado(a) pelas mais diversas circunstâncias - até, em última análise, pela morte.


Tendo clareado as causas e os culpados, fica a dúvida: Como equilibrar a incerteza/insegurança necessária para a excitação do desejo com o aconchego do relacionamento longo?


Simples! A incerteza já está lá e é você que faz um enorme esforço para conviver com ela, escondendo-a por trás de todas as suas fantasias de estabilidade.


Para a maioria dos casais, resgatar a paixão, o desejo, a vontade de conquistar, a excitação da insegurança é apenas se dar contar de que a certeza do relacionamento firme e duradouro não existe.

Quando passamos a olhar para o outro, conscientes de que podemos perdê-lo, passamos a nos esforçar para conquistá-lo todos dos dias. "Ah! Mas não quero conquistar"... se você não se sente inseguro considerando a realidade de que pode perder a qualquer instante, sugiro considerar se você substituiu a paixão, não pelo amor, mas por puro comodismo.


Na realidade, assumir o erotismo no relacionamento é arriscado. É conviver com o medo constante de expor nossa vulnerabilidade ao idealizar o outro com o "eu te quero", reconhecendo o poder que ele tem sobre nossa vontade e sobre nós. Quando aceitamos que o outro é independente, tem sua própria vontade (inclusive de nos rejeitar) e liberdade (para nos deixar quando quiser) deixamos claro para nós mesmos que somos vulneráveis à vontade do outro.


Nossa defesa mental típica à essa ameaça assustadora (de estarmos sob a vontade do outro) é de "resistir ao desejo", nos esforçando para fazer o relacionamento permanecer no âmbito do familiar e do aconchego o máximo que puder, com briguinhas, sexo confortável e tudo o que for parte do cotidiano da vida... Até que, um dia, o tédio conjugal se instala de uma forma que, ou o casal "se separa se amando" ou busca a terapia como última chance de reacender a paixão, sem ter percebido que a causa para a morte de relacionamento foi alimentada, ao longo dos anos, pelo próprio casal.

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